O cotidiano de um poeta seria intraduzível, não fossem os versos... A gente tem olhos de filme, talvez daí ser tão difícil viver nesse mundo... É como se tudo rodasse, feito película rara, em P&B, dessas que a gente não esquece nunca, e que foi filmada a partir de um livro inteiro de poemas.
Às vezes, tudo anda em câmera lenta e a gente fica só observando, cuidando onde estarão as brechas para a próxima estrofe.
Gosto de pensar que os músicos ouvem melodias por toda parte e que os artistas plásticos vêem quadros e esculturas onde quer que seus olhos pousem, assim como as crianças vêem brinquedo em tudo.
Seria natural que os amantes respirassem coraçõezinhos, mas não; eles respiram o ar um do outro. Ar que, trocado, vira loucura, faz tremer os joelhos, acelera o pulso e se instala na cabeça, onde tatua o nome do amado que, transformado em saliva, enche a boca da mais sublime poesia.
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